Ontem à noite, enquanto escrevia mais um texto idiótico para este blogue (sem dúvida o pior de todos)… tive uma epifania.
Sonhei... Acordei a meio da noite... Levantei-me, todo eufórico... Peguei na caneta e no papel e preparei-me para escrever o que imaginei. Sentado à mesa, quis desafiar o mundo, mas perdi demasiado tempo a pensar no que sonhara. Hesitei... De súbito, tive um pressentimento que julgava ser o aflorar de mais uma ideia. Mas não! "Porra, esqueci-me do que ia escrever!" Desiludido, voltei a deitar-me. Tive pesadelos durante o resto da noite. Demorara demasiado tempo, fui apanhado pelo esquecimento.
Ontem à noite, enquanto escrevia mais um texto idiótico para este blogue (sem dúvida o pior de todos)… tive uma epifania.
O Natal de 2020 jamais seria esquecido por João Olho Torto, não só vira o primeiro astronauta terráqueo a pisar solo marciano (um chinês de nome inpronunciável que rimava a Ping-Pong), como tinha recebido o seu primeiro “kit” de ciência. Enquanto olhava para a etiqueta que dizia “made in Portugal” (num claro sinal de que Portugal finalmente atingira o estatuto de grande potência do Terceiro Mundo no fabrico de descartáveis), o nosso herói perneta começou a labutar na fórmula química que iria permitir-lhe ter duas pernas, dois olhos e dois falos: a entidade humana mais harmoniosa e perfeita que poderia existir.
A felicidade transbordava-lhe pela face como a água pelas ruas de Alcântara em dias de chuvada, pensando excitadamente nas dezenas de rapariguinhas, com aparelhos dentários e estúpidos totós à guiador de mota, que iria seduzir para a sua cama de nerd de colchão cheio de marcas de chichi. “Agora vou ser alguém normal, mais nenhuma mulher me rejeitará”, grunhiu numa ovação de auto-louvor, imaginando as maravilhas colossais que dois falos descomunais podem fabricar.
Escusado será dizer que essas suas experiências foram um fracasso retumbante. O resultado mais óbvio foi um testículo que mirrou e um outro que inchou. Agora, além de continuar perneta e triolho, era também um “autêntico larilas”, como lhe chamavam os colegas de escola e vizinhos ao verem-no jogar futebol com os calções apertados. Frustrado por não poder ter dois falos como um mutante de Chernoby, e estar reduzido à condição de ser monotesticular, João Olho Torto esqueceu aquelas que poderiam vir a ser as suas futuras extraordinárias performances sexuais e dedicou-se à ciência pura e dura, passando noites em claro no seu mini-laboratório e a brincar com o seu novo testículo inflacionado nos momentos de pausa (num excelente exemplo de catarse contra o stress intelectual).
Passados três anos, naqueles que foram os seus “annus mirabilis” (não confundir com ânus maravilhoso), magicou aquela que viria a ser o maior invenção da humanidade: a máquina sub-atómica de peidos fedorentos. Em breve, Hiroxima, Nagasáqui e Chernobyl seriam ultrapassadas por um desastre ainda maior, especialmente para o olfacto e os pelos do nariz.
Constantemente rejeitado pelas rapariguinhas da escola e sempre acossado ou pontapeado pelos rufiões endiabrados da turma, decidiu aplicar neles a sua mais recente experiência maléfica. Em plena aula de Ciência Sexual Avançada (sim, em 2023 esta disciplina foi tornada obrigatória) e enquanto a professora estava de costas para os pequenos terroristas, João Olho Torto acabava de levar em cheio com uma escarreta, expelida por Zézé Cospe-Cospe, mesmo em cheio no olho cimeiro. De forma serena e conspícua, colocou uma mola da roupa no nariz e sacou da mochila algo que se parecia com uma buzina de camião transformada em pistola de aspecto pouco letal (as aparências sempre enganam). Tapou a boca e premiu o gatilho, fazendo ecoar pelas paredes da sala de aula um barulho ensurdecedor que fazia lembrar o brado de acasalamento de um homem da Brandoa para com uma boazona de Cascais.
Espantados com aquele som horrivelmente poderoso, os jovens terroristas escolares não conseguiram escapar a um intenso mau cheiro que os pintou com as mais variadas cores. Zézé Cospe-Cospe foi a principal vítima, de pele verde e às manchas vermelhas mais parecia um sapo com sarampo, caindo com a cadeira para trás e esperneando-se como se fosse um batráquio dentro de água. A vingança estava feita, congratulou-se João Olho Torto, mas a taxa de vítimas inocentes fora demasiado alta: a um canto da sala a professora BumBum Racha fazia um estranho pino para se libertar do caudal de vómito que escorria pela goela (escusado será dizer que a acrobacia deixara ao léu o facto de não usar cuecas debaixo da saia curta), enquanto o resto da turma enfiara a cabeça dentro das mochilas, aproveitando o efeito avestruz para enfeitar com pedaços de verde líquido os impecáveis livrinhos novos que tanto pilim tinham custado aos papás babosos.
Mas os nefastos efeitos colaterais ficaram bem mais visíveis e cheiráveis quando a intensa nuvem de metano (com cheiro a feijão português podre, esse elemento secreto usado pelo nosso cientista do apocalipse), assumiu proporções maiores do que as imaginadas e espalhou-se por toda a escola, conseguindo escapar para além do recinto da mesma. Foi maravilhoso ver os pobres explorados dos centros de call-center, existentes nas imediações mais próximas, a fugir do local de trabalho como o Belmiro de Azevedo foge dos aumentos salariais (ou o diabo foge da cruz, se preferirem). Durante duas semanas os militares selaram todo o espaço urbano contaminado e efectuaram testes para ver se aquele tinha sido mais um ataque terrorista à precariedade laboral. Chegaram à conclusão que nem o mais perigoso dos Bin Ladens teria recorrido à bufa portuguesa para fazer um ataque tão cobarde e vil.
Inadvertidamente, o nosso jovem cientista ganhara o epíteto de louco perigoso, uma ameaça para o mundo ocidental bem cheiroso (amante do Calvin Klein), criando a arma mais terrífica do século XXI, a bomba sub-atómica dos peidos fedentos, versão “feijão português fora do prazo de validade”.
Temendo ser preso pela Interpol ou a CIA, por terrorismo juvenil, acabou-se por achar recrutado por agentes da espionagem chinesa, dois tipos de aspecto franzino que se pensava serem dois meros jogadores de futebol das camadas juniores do Benfica. As voltas que a vida dava.
Mascarado de agente FIFA dos dois pretensos jogadores, fugiu para Beijing e tornou-se num cientista louco, trabalhando num laboratório secreto onde suas as três refeições diárias envolviam ou chop-suey de vaca ou caril de gambas.
As consequências foram terríveis… e anos mais tarde, de idade madura e já refugiado numa qualquer cabana junto à praia (ouvindo estúpidas canções do José Cid que envolviam bananas), descobriu-se incapaz de comer carne e marisco. Uma autêntica tristeza… dado que para além de ter um só testículo, não conseguia comer o tradicional manjar do homem de barba rija: carne e marisco… Decididamente… era um pseudo-maricas.
No entanto, o consolo chegava todas as noites, enquanto contemplava o estrelado céu que tantos sonhos criava, lembrando-se que lá bem no alto uma nave espacial, movida a peidos de feijão português, levava os primeiros astronautas chineses às luas de Júpiter, para as povoar… e abrir as primeiras lojas de bugigangas inter-planetárias.
O médico pediatra não sabia como definir a criatura que tinha à sua frente. Nunca vira nada assim, nem nos tempos em que era veterinário rural e tinha que meter a mão, besuntada com vaselina, pelo rego adentro das lindas vaquinhas malhadas. O raio do puto tinha três olhos e uma perna! “Uma perna ainda vai lá, ficava como deficiente e quando tivesse a carta passava a poder estacionar o raio do carro onde quer que lhe apetecesse! Mas três olhos? E um deles no meio da testa? Não tarda aparece-me uma tartaruga ninja bebé com dois buracos do cú!”, pensou aturdidamente sem saber que diagnóstico elaborar.
- O seu filho não é normal meu caro senhor”, disse com frieza o velho homem de bata branca a Tó Vinhaças, o bigodaças que se assumia como progenitor de João Olho Torto (nessa altura ainda não tinha esse nome, sendo apenas chamado de “João, o filho do Vinhaças).
- Não é normal? Mas o rapaz tem olhos, tem boquinha e nariz, e uma barriguinha fofinha que me dá vontade de beliscar como se fosse uma perna de presunto? E olhe para esta perninha… parece um chouricinho… que coisa mais linda. - Apressou-se Tó Moedas a responder, estranhando a estúpida observação daquele velhadas com ar de professor chanfrado.
- Presuntinho? Chouricinho? Não tarda está a dizer que o pipi dele parece a torneira de um barril de vinho e põe-se-me para aqui a chupá-lo. Já agora agarre no rabinho dele e faça de conta que são duas côdeas de pão para acompanhar a bebida. – Irritou-se o homem, enquanto tirava com a unhaca a cera do ouvido. – O seu filho tem que ser internado num hospital pediátrico, para ser operado. Você tem nas mãos uma aberração. Olhe bem para ele, tem um olho a mais e uma perna a menos. E ainda por cima é vesgo desse olho.
Depois de chegar a casa e de avisar Bábá Olho Cego do que o médico lhe dissera, a sagaz mulher só teve tempo de gritar:
- O meu filho uma aberração? Eu já lhe digo o que vou fazer. Ele vai ser médico. Ouviste bem? Um doutor! Há-de meter toda essa gentalha num bolso e dar-nos uma casa boa para vivermos. Eles que esperem para ver. Têm é inveja de não ter um filho assim.
- Mas querida, pode ser grave o que o Joãozinho tem, se calhar é melhor enviá-lo para um hospital. Olha para ele? Não achas estranho ele ser assim?
- Estranho? – Enraiveceu com todo o rubor. – Estás a chamar estranho ao meu filho? Ao meu futuro sustento? Estranho é chegares a casa, todas as noites, a cheirar a putas e sem um tostão na carteira ó meu cabrão!
Mal acabava de dizer isto, Bábá sacava de um valente pantufada na cara do pobre homem, mas para azar dos azares o miúdo ainda estava ao colo do ressacado progenitor, que não aguentando o impacto da balofa mão na esquelética cara, largou o miúdo, deixando-o ir em direcção ao chão, completamente desamparado. Mas eis que um milagre acontece, pois num movimento digno de um felino, João Olho Torto agarrou-se com ágeis mãos de petiz ao tampão da mesa que estava ali mesmo ao lado, evitando que desse uma queda de proporções catastróficas para algo do tamanho de palmo e meio. O próprio Preud’Homme teria ficado envergonhado perante tal exercício de agilidade.
Todo babado de satisfação e contente por aquele acontecimento ter evitado levar outra lambada da mulher na cara, Tó Vinhaças agarrou o garoto e ergueu-o bem alto:
- Tens razão, ele não é estranho. Mas não será nem médico ou advogado. Vai ser guarda-redes do Benfica!
Foi com os pensamentos direccionados para esse momento do passado, que Tó Vinhaças, alguns anos depois, via a primeira aparição do filho num jogo de infantis, acompanhado da bafienta mulher que, já com mais alguns anos (e quilos de banha) em cima, deitava um belo cheiro a cavalar dos sovacos e de entre os largos seios. Lá ao longe estava João Olho Torto, sozinho na baliza, preparando-se para enfrentar o destino.
Olhando para si, com ar fulminante e meticuloso, estava Zézé Cospe-Cospe, o garoto mais traquinas das escolinhas de Alcabideche, o único pirralho, a nível mundial, capaz de lançar uma cuspidela a dez metros de distância e acertar em cheio no olho de qualquer adversário ou árbitro. As suas cuspidelas, além de serem silenciosas que nem tiros de sniper, eram conhecidas pela sua acidez, capazes de cegar por vários segundos qualquer ser vivo.
Mas aquilo que João Olho Torto enfrentava, naquele momento, era algo mais temível do que um sniper, de arma cheia de escarretas, a apontar-lhe a mira. Zézé Cospe-Cospe era, acima de tudo, o melhor ponta-de-lança a nível distrital, a temível besta negra que antes de rematar tinha o maravilhoso dom de cegar o guarda-redes com uma cuspidela que abarcava ambos os olhos. Fenomenal! Não havia remate dele que não fosse golo. João Olho Torto tinha que evitar o golo se queria ficar nos anais da história e ser levado em ombros pelos olheiros do Benfica. Jogava-se o seu futuro naquele momento, era o tudo ou nada, mas não era fácil defender um pénalti e evitar, ao mesmo tempo, uma escarra nos olhos. Aguentara até ao fim do penúltimo minuto de jogo sem sofrer um golo e estava a ser o herói da estúpida pequenada que só sabia dar caneladas e imitar o mariconço do Cristiano Ronaldo.
Depois de vinte cuspidelas, seguidas de igual número de remates, Zézé Cospe-Cospe não tinha ainda conseguido marcar um único golo. Uma anormalidade! Naquele dia nada entrava na baliza de João Olho Torto, por mais terra e saliva que a sua cara tivesse, e isto logo no seu dia de estreia na baliza. Com três olhos enfiados na carantonha, era difícil que um só tiro de baba concentrada acertasse nas três oculares ao mesmo tempo. Bem que tentavam marcar-lhe golos por entre as pernas, mas o raio do rapaz defendia-as com um instinto fora de série… tomara, só com uma perna era já de si impossível sofrer um golo assim.
Todos olhavam, com delírio e espanto, para o novo fenómeno das balizas de palmo e meio, miúdos e olheiros de outros clubes estavam arregalados com os milagres que aquele rapazote, de aspecto pouco humano, era capaz de proporcionar. João Olho Torto estava em êxtase e agora chegava o momento em que tinha de defender um remate de grande penalidade, mesmo em cima dos últimos segundos de jogo. Havia um silêncio sepulcral.
A tensão aumentava entre o ponta-de-lança e o guarda-redes. Os três olhos de João Olho Torto garantiam-lhe uma vantagem sobre a arma táctico-bocal de Zézé Cospe-Cospe, mas a criatividade, digna de um Maradona encocaínado, que corria na cuca do pirralho de língua sempre aguada, era maior do que o seu rio de fluidos estomacais. No momento do remate, Zézé expele, que nem um canhão atómico, uma bola de plasma verde que vai acertar em cheio no travessão da baliza, sendo que no momento do impacto esta teve o condão de se dividir em três bolas da baba menor que foram acertar em cada um dos olhos de João Olho Torto. Um autêntico milagre da física das partículas. Completamente cego e apanhado de surpresa pela técnica impressionante de Zézé com as suas bolinhas de cuspo, foi fácil ao piolhoso avançado marcar o golo vitorioso.
A bola atravessara a linha de golo e o apito do árbitro soara para sancionar o fim do jogo. Era o fim. Zézé Cospe-Cospe, para além de continuar o melhor avançado de sempre das escolinhas de Alcabideche, era agora um mestre na teoria da física das partículas, um verdadeiro dois em um que juntava o Didier Drogba ao Albert Einstein.
O nosso guarda-redes jazia no chão, a esfregar os olhos cheios de um ácido baboso que lhe queimavam a córneas, praguejando a torto e pedindo que uma gota de saliva de contornos diluvianos caísse em cima do minorca que lhe marcara um golo. Não satisfeito com o momento de vitória que tivera, Zézé aproximou-se de João Olho Torto e deu-lhe um real pontapé entre os tintins, exclamando com toda a pompa e circunstância:
- Ó perneta, queres brincar ao canguru e levar no cú? Eh! Eh! Eh! És uma merda. Incha Porco!.
O pequeno perneta começou a espernear que nem uma vaca com Creutzfeldt Jacob (as ditas vacas loucas) enquanto começava a esfregar com as mãos os pequenos testículos esticados. Mas o que mais lhe doeu foram aquelas palavras de arrogância (que poderiam ter sido ditas por um qualquer José Mourinho) serem despachadas por aquele fedelho cuspideiro.
O sentimento de afronta subiu-lhe à cabeça e limpou-lhe os olhos da baba estranha que se tinha entranhado. Levantou-se do chão sem pensar em mais nada (nem na dor terrível que tinha nas bolas do baixo ventre), sacudiu a lama que se tinha colado ao corpo e lá foi, saltito, atrás de saltito, para junto dos pais, como se nada tivesse acontecido nos momentos anteriores… despido de qualquer vergonha. Mas não voltaria a ser guarda-redes, ficara farto do futebol. A partir daquele momento soube que queria ser cientista, pelo que partiria à descoberta de uma arma de raios laser que fulminasse para sempre o seu novo arqui-inimigo, Zézé Cospe-Cospe. Mais do que nunca, estava decidido a conquistar o mundo e a aniquilar os injustos.
- É assim mesmo filhote, sempre de cabeça erguida. – Gritou efusivamente Tó Vinhaças, vendo o filho a aproximar-se.
- Mais um falhado na família. Outro parvo que vai ser igual ao pai. – Consternou-se, por sua vez, a redonda matrona, enquanto tirava as cuecas do rego com um belo e farto peido. O futuro não se lhe augurava nada bom, e a vivenda de dois andares com garagem, em Cascais, pairava já bem longe do seu imaginário, pois nenhum cientista português jamais conseguira, sequer, pagar as dívidas que tinha na taberna, quanto mais ter casa própria.