19 de dezembro de 2008

A incrível biografia de um parvo (Capítulo 2 – Infância e primeiro sonho falhado)

O médico pediatra não sabia como definir a criatura que tinha à sua frente. Nunca vira nada assim, nem nos tempos em que era veterinário rural e tinha que meter a mão, besuntada com vaselina, pelo rego adentro das lindas vaquinhas malhadas. O raio do puto tinha três olhos e uma perna! “Uma perna ainda vai lá, ficava como deficiente e quando tivesse a carta passava a poder estacionar o raio do carro onde quer que lhe apetecesse! Mas três olhos? E um deles no meio da testa? Não tarda aparece-me uma tartaruga ninja bebé com dois buracos do cú!”, pensou aturdidamente sem saber que diagnóstico elaborar.


- O seu filho não é normal meu caro senhor”, disse com frieza o velho homem de bata branca a Tó Vinhaças, o bigodaças que se assumia como progenitor de João Olho Torto (nessa altura ainda não tinha esse nome, sendo apenas chamado de “João, o filho do Vinhaças).

- Não é normal? Mas o rapaz tem olhos, tem boquinha e nariz, e uma barriguinha fofinha que me dá vontade de beliscar como se fosse uma perna de presunto? E olhe para esta perninha… parece um chouricinho… que coisa mais linda. - Apressou-se Tó Moedas a responder, estranhando a estúpida observação daquele velhadas com ar de professor chanfrado.

- Presuntinho? Chouricinho? Não tarda está a dizer que o pipi dele parece a torneira de um barril de vinho e põe-se-me para aqui a chupá-lo. Já agora agarre no rabinho dele e faça de conta que são duas côdeas de pão para acompanhar a bebida. – Irritou-se o homem, enquanto tirava com a unhaca a cera do ouvido. – O seu filho tem que ser internado num hospital pediátrico, para ser operado. Você tem nas mãos uma aberração. Olhe bem para ele, tem um olho a mais e uma perna a menos. E ainda por cima é vesgo desse olho.


Depois de chegar a casa e de avisar Bábá Olho Cego do que o médico lhe dissera, a sagaz mulher só teve tempo de gritar:

- O meu filho uma aberração? Eu já lhe digo o que vou fazer. Ele vai ser médico. Ouviste bem? Um doutor! Há-de meter toda essa gentalha num bolso e dar-nos uma casa boa para vivermos. Eles que esperem para ver. Têm é inveja de não ter um filho assim.

- Mas querida, pode ser grave o que o Joãozinho tem, se calhar é melhor enviá-lo para um hospital. Olha para ele? Não achas estranho ele ser assim?

- Estranho? – Enraiveceu com todo o rubor. – Estás a chamar estranho ao meu filho? Ao meu futuro sustento? Estranho é chegares a casa, todas as noites, a cheirar a putas e sem um tostão na carteira ó meu cabrão!


Mal acabava de dizer isto, Bábá sacava de um valente pantufada na cara do pobre homem, mas para azar dos azares o miúdo ainda estava ao colo do ressacado progenitor, que não aguentando o impacto da balofa mão na esquelética cara, largou o miúdo, deixando-o ir em direcção ao chão, completamente desamparado. Mas eis que um milagre acontece, pois num movimento digno de um felino, João Olho Torto agarrou-se com ágeis mãos de petiz ao tampão da mesa que estava ali mesmo ao lado, evitando que desse uma queda de proporções catastróficas para algo do tamanho de palmo e meio. O próprio Preud’Homme teria ficado envergonhado perante tal exercício de agilidade.

Todo babado de satisfação e contente por aquele acontecimento ter evitado levar outra lambada da mulher na cara, Tó Vinhaças agarrou o garoto e ergueu-o bem alto:

- Tens razão, ele não é estranho. Mas não será nem médico ou advogado. Vai ser guarda-redes do Benfica!


Foi com os pensamentos direccionados para esse momento do passado, que Tó Vinhaças, alguns anos depois, via a primeira aparição do filho num jogo de infantis, acompanhado da bafienta mulher que, já com mais alguns anos (e quilos de banha) em cima, deitava um belo cheiro a cavalar dos sovacos e de entre os largos seios. Lá ao longe estava João Olho Torto, sozinho na baliza, preparando-se para enfrentar o destino.


Olhando para si, com ar fulminante e meticuloso, estava Zézé Cospe-Cospe, o garoto mais traquinas das escolinhas de Alcabideche, o único pirralho, a nível mundial, capaz de lançar uma cuspidela a dez metros de distância e acertar em cheio no olho de qualquer adversário ou árbitro. As suas cuspidelas, além de serem silenciosas que nem tiros de sniper, eram conhecidas pela sua acidez, capazes de cegar por vários segundos qualquer ser vivo.


Mas aquilo que João Olho Torto enfrentava, naquele momento, era algo mais temível do que um sniper, de arma cheia de escarretas, a apontar-lhe a mira. Zézé Cospe-Cospe era, acima de tudo, o melhor ponta-de-lança a nível distrital, a temível besta negra que antes de rematar tinha o maravilhoso dom de cegar o guarda-redes com uma cuspidela que abarcava ambos os olhos. Fenomenal! Não havia remate dele que não fosse golo. João Olho Torto tinha que evitar o golo se queria ficar nos anais da história e ser levado em ombros pelos olheiros do Benfica. Jogava-se o seu futuro naquele momento, era o tudo ou nada, mas não era fácil defender um pénalti e evitar, ao mesmo tempo, uma escarra nos olhos. Aguentara até ao fim do penúltimo minuto de jogo sem sofrer um golo e estava a ser o herói da estúpida pequenada que só sabia dar caneladas e imitar o mariconço do Cristiano Ronaldo.


Depois de vinte cuspidelas, seguidas de igual número de remates, Zézé Cospe-Cospe não tinha ainda conseguido marcar um único golo. Uma anormalidade! Naquele dia nada entrava na baliza de João Olho Torto, por mais terra e saliva que a sua cara tivesse, e isto logo no seu dia de estreia na baliza. Com três olhos enfiados na carantonha, era difícil que um só tiro de baba concentrada acertasse nas três oculares ao mesmo tempo. Bem que tentavam marcar-lhe golos por entre as pernas, mas o raio do rapaz defendia-as com um instinto fora de série… tomara, só com uma perna era já de si impossível sofrer um golo assim.


Todos olhavam, com delírio e espanto, para o novo fenómeno das balizas de palmo e meio, miúdos e olheiros de outros clubes estavam arregalados com os milagres que aquele rapazote, de aspecto pouco humano, era capaz de proporcionar. João Olho Torto estava em êxtase e agora chegava o momento em que tinha de defender um remate de grande penalidade, mesmo em cima dos últimos segundos de jogo. Havia um silêncio sepulcral.


A tensão aumentava entre o ponta-de-lança e o guarda-redes. Os três olhos de João Olho Torto garantiam-lhe uma vantagem sobre a arma táctico-bocal de Zézé Cospe-Cospe, mas a criatividade, digna de um Maradona encocaínado, que corria na cuca do pirralho de língua sempre aguada, era maior do que o seu rio de fluidos estomacais. No momento do remate, Zézé expele, que nem um canhão atómico, uma bola de plasma verde que vai acertar em cheio no travessão da baliza, sendo que no momento do impacto esta teve o condão de se dividir em três bolas da baba menor que foram acertar em cada um dos olhos de João Olho Torto. Um autêntico milagre da física das partículas. Completamente cego e apanhado de surpresa pela técnica impressionante de Zézé com as suas bolinhas de cuspo, foi fácil ao piolhoso avançado marcar o golo vitorioso.


A bola atravessara a linha de golo e o apito do árbitro soara para sancionar o fim do jogo. Era o fim. Zézé Cospe-Cospe, para além de continuar o melhor avançado de sempre das escolinhas de Alcabideche, era agora um mestre na teoria da física das partículas, um verdadeiro dois em um que juntava o Didier Drogba ao Albert Einstein.


O nosso guarda-redes jazia no chão, a esfregar os olhos cheios de um ácido baboso que lhe queimavam a córneas, praguejando a torto e pedindo que uma gota de saliva de contornos diluvianos caísse em cima do minorca que lhe marcara um golo. Não satisfeito com o momento de vitória que tivera, Zézé aproximou-se de João Olho Torto e deu-lhe um real pontapé entre os tintins, exclamando com toda a pompa e circunstância:

- Ó perneta, queres brincar ao canguru e levar no cú? Eh! Eh! Eh! És uma merda. Incha Porco!.

O pequeno perneta começou a espernear que nem uma vaca com Creutzfeldt Jacob (as ditas vacas loucas) enquanto começava a esfregar com as mãos os pequenos testículos esticados. Mas o que mais lhe doeu foram aquelas palavras de arrogância (que poderiam ter sido ditas por um qualquer José Mourinho) serem despachadas por aquele fedelho cuspideiro.


O sentimento de afronta subiu-lhe à cabeça e limpou-lhe os olhos da baba estranha que se tinha entranhado. Levantou-se do chão sem pensar em mais nada (nem na dor terrível que tinha nas bolas do baixo ventre), sacudiu a lama que se tinha colado ao corpo e lá foi, saltito, atrás de saltito, para junto dos pais, como se nada tivesse acontecido nos momentos anteriores… despido de qualquer vergonha. Mas não voltaria a ser guarda-redes, ficara farto do futebol. A partir daquele momento soube que queria ser cientista, pelo que partiria à descoberta de uma arma de raios laser que fulminasse para sempre o seu novo arqui-inimigo, Zézé Cospe-Cospe. Mais do que nunca, estava decidido a conquistar o mundo e a aniquilar os injustos.


- É assim mesmo filhote, sempre de cabeça erguida. – Gritou efusivamente Tó Vinhaças, vendo o filho a aproximar-se.

- Mais um falhado na família. Outro parvo que vai ser igual ao pai. – Consternou-se, por sua vez, a redonda matrona, enquanto tirava as cuecas do rego com um belo e farto peido. O futuro não se lhe augurava nada bom, e a vivenda de dois andares com garagem, em Cascais, pairava já bem longe do seu imaginário, pois nenhum cientista português jamais conseguira, sequer, pagar as dívidas que tinha na taberna, quanto mais ter casa própria.

8 de dezembro de 2008

Um pedido de explicações a mim próprio

Houve “alguém” que me disse, há poucos dias, que o primeiro texto que colocamos num blogue acaba, irremediavelmente, por influenciar o que as pessoas esperam no futuro desse mesmo blogue.

Perante este aviso, que me sobressaltou e fez pensar, cabe a mim avisar, portanto, que o meu primeiro texto não reflecte aquilo que pretendo vir a escrever neste espaço de verborreia desenfreada. Tal como na vida, deve haver tempo e espaço para tudo: desde o riso ao choro, do lamento sem sentido à força que torneia todo o obstáculo, da razão à irracionalidade, do sentir ao amar. A única coisa que renego para mim e para estas linhas é o ódio e a mesquinhez. Tudo o resto deve ser bem-vindo, mesmo que não concordemos com o que está escrito.

Esse mesmo “alguém” perguntou-me se não fora por medo (quiçá cobardia) que escrevera, como primeiro texto, uma sátira rocambolesca que de certeza não seria vítima de muitas críticas. “Tens medo que critiquem algo verdadeiramente teu, algo que te venha do fundo, e é esse medo que te leva a mostrar algo que não és, ou pelo menos só uma pequena parte do que representas enquanto ser humano”, afrontou-me a pessoa. “Aquele texto devia reflectir aquilo que és verdadeiramente e aquilo que queres escrever (com todas as virtudes e defeitos), mas não foi isso que fizeste, optaste pela opção que te era mais fácil”, alertou-me também.

Depois de matutar por alguns segundos nestas palavras, preparei-me para as contestar e, de certa forma, até acabei por fazer isso, mas de forma atabalhoada e incoerente. No entanto, a simplicidade do argumento que me foi atirado à cara, assim como às minhas ideias pré-estabelecidas, era demasiado verdadeiro e poderosamente simples para o negar por uma questão de estúpido orgulho: “Raios, acho que (ele/ela) tem razão. E agora, que faço eu?”

Eis então a resposta ao meu “que faço eu agora?”… ela está patente ao longo destas linhas que leram, e continuará ao longo dos textos que aqui colocar. Simplesmente, serei eu próprio, sem medos que leiam ou critiquem o que aqui disser, sem receio de mostrar aquilo que realmente penso. Mal seria do mundo se todos os humanos tivessem que agir de acordo com as preferências e exigências dos outros… e não as nossas!

Saltar sobre o medo

Fui buscar ao baú das recordações um texto que escrevi há muito tempo atrás. Não fazia sentido, depois do que disse no texto anterior, não voltar a evocá-lo.
Seria condenar ao esquecimento algo que pensei com intensidade e que não quero voltar a esquecer. Ou seja… que estúpido desperdício seria.


Saltar sobre o medo

O medo persiste em perseguir-nos por todo o lado. Para onde quer que vamos, seja lá o que for que façamos ele está sempre presente dentro de nós. Medo de pensar errado, medo de falar mal, medo de falhar nas nossas acções do dia-a-dia, de não atingir os objectivos que idealizámos para a nossa vida, medo de amar, medo de não ser compreendido pelos outros, medo de envelhecer, medo do fracasso eminente, medo de morrer…medo, medo, e mais medo.

Mas é errado querer impor a ideia de que o medo nos cercou e conquistou, de que ele é exterior a nós. Ele existe dentro de nós, é-nos intrínseco, e não pode escapar dentro de nós porque tem a sua importância para o nosso desenvolvimento, para o nosso devir como seres humanos. Mas sentirmos medo não é sinal de fraqueza ou derrota. Ele só o é, realmente, quando se apodera completamente de nós e conquista o domínio das nossas acções, levando-nos ao imobilismo, ao conformismo pelo que se instituiu normal e banal, á especulação sem conhecimento de causa, ao idealismo de poltrona em que o mundano material dita-nos o que devemos pensar ou fazer, mantendo-nos enclausurados na percepção de que nada pode ser diferente, de que não há alternativas, outros mundos para conquistar, outras galáxias na nossa mente para explorar.

O diferente mete-nos medo, a simples possibilidade de agir de outro modo terrifica-nos, amedronta-nos, faz-nos recuar perante as infinitas opções que temos ao dispor da nossa vida. Pelo que, ao ser dominados por esse sentimento, escolhemos o caminho que menos se afasta do confortável, que se apresenta como mais previsível, mais racional e aceitável aos olhos dos outros que nos observam, perscrutam e classificam, e construímos em nós uma aversão ao risco que nos deixa paralisados.

Deixámos que o medo se tornasse no espelho da nossa pessoa, que fosse lei em nós, e demos espaço à indiferença quando tentamos mentalizar no que poderia e poderíamos ter sido, mas que não o foi. Mas no fundo o nosso medo é o temor de errar, porque ele nos humilha perante os outros, faz-nos sentir inferiores, perdidos, abjectos e tontos. Optamos pelo caminho seguro, que não nos faz sentir o rubor do embaraço, que nos tranquiliza materialmente mas não emocionalmente, e nos remete para uma vivência que traz um sabor (sempre escamoteado por nós) de que algo está errado naquele enredo de que fazemos parte como elemento integrante e itinerante.

Humilhante não é o errar, perder ou ficar para trás. Humilhante é o ter medo de arriscar e de enfrentar os temores, mesmo tendo a consciência de que o perigo e o fracasso são eminentes. Viver é ganhar e perder, avançar e recuar, e se não temos medo da possível vitória, também não deveremos ter receio da derrota exequível.
O medo dominador só se expurga do seu poder entronizado em nós quando tomamos as opções que sentimos como certas, sem pragmatismo, sem receio de perder ou ficar em plano inferior aos demais, porque o que conta no fim é sabermos que fizemos tudo o que estava ao nosso alcance para atingir o nosso único dever como seres humanos de um mundo irrequieto e imprevisível: ser feliz.

3 de dezembro de 2008

A incrível biografia de um Parvo (Capítulo 1 - "Nascimento")

Esta não é a estória de um homem, ou quanto mais de uma mulher, de um rato também não será dado a nossa personagem não ser quadrúpede nem cauda ter. O que ele é já o identificaremos mais adiante (depois do autor deste escrito se lembrar de algo bem parvo para inventar). O nome da criatura é João Olho Torto e nasceu com três olhos e uma perna. Não me perguntem porque tinha um olho a mais na testa, ainda por cima vesgo, ou porque no lugar de dois membros inferiores tinha apenas um, bem debaixo dos testículos – escusado será mencionar as dores que o sujeito sofreu ao longo da vida, pois com tanto pulinho seguido os tintins ficaram mais esticados do que a pele facial da Lili Caneças.

Mas porque nasceu ele assim não cabe a mim responder, pois só a natureza, nas suas mais estúpidas decisões, poderá dar uma razão (ou então Deus existe mesmo e concebeu o raio da criatura com uma bebedeira omnipresente na cornadura). Mas comecemos pelo início.

Precisamente às 15 horas do 25º dia de Janeiro do ano de 2002, Eusébio da Silva Ferreira comemorava a o seu 60º aniversário, ao mesmo tempo que Bábá Olho Cego (era zarolha mas conta como se fosse cega) comemorava o primeiro dia de saldos na Baixa de Lisboa. Depois de ter pago 100 euros por um soutien negro bordado a dourado, de copa XL, Bábá contemplava umas cuecas que teriam servido para fazer aterrar um soldado inglês nas praias da Normandia. E foi mirando a bela cor bege daquele aquecedor de nádegas, que se deu conta do peculiar fenómeno químico que ocorria nas cuecas amarelas que vestia. “Estou molhada… merda… abriram-se-me as águas no primeiro dia de saldos”, blasfemou a pobre mulher, vendo a oportunidade que iria perder devido a uma queca sem protecção adequada que dera à nove meses atrás.

Irrompendo pelo Santa Maria adentro Babá Olho Cego lembrou-se do maior cuidado que uma mulher grávida poderia ter naquele momento: “Guardem o raio do soutien que me custou cem euros… ai Jesus… por favor guardem-mo”. E vendo que o artefacto de adorno aos seus marmelos (adoro o calão de sarjeta) estava salvaguardado, depois de uma promessa feita por uma enfermeira que usava a mesma copa de soutine, Bábá Olho Cego sentiu-se pronta para dar ao mundo mais um ser vivo que iria estar dependente, no futuro, do subsídio de desemprego. Estava tão radiante a pobre mulher (literalmente no sentido económico).

“Abra lá as perninhas e faça força… vá… tem que fazer ‘uch’ ‘uch’ com os pulmões”, disse o aperaltado médico que ia ajudar no parto. “Mas ó senhor doutor, como raio se faz isso?”, desabafou a dorida mulher, já de si triste por ter visto a suas cuecas amarelas (que lhe custaram 50 euros nos saldos do ano passado) serem cortadas por uma tesoura ferrugenta datada de antes do 25 de Abril. “Mas nunca viu o Serviço de Urgências com o George Clooney? Que raio de mulher é você? Nunca viu o que as grávidas fazem quando irrompem pelo diabo das urgências adentro, a gritar que nem umas peixeiras desvairadas?”, empertigou de forma pseudo-paternal o belo doutor de olhos azuis e cabelo negro besuntado a gel.

E foi imitando o que se fazia numa série de televisão yankee que Bábá tomou os procedimentos certos para cagar cá para fora… perdão… expelir para o belo mundo exterior, a estupenda criatura que se iria chamar João Olho Torto.

Olhando pela vagina adentro da Bábá Olho Cego, o médico esperou ver o animal humano a sair a qualquer momento. Esperou por uma cabecinha a sair, uma espécie de pequena bola empapada numa espécie de gosma intra-uterino… “um autêntico nojo digno de ser respondido com um vómito intra-estomacal”, como o próprio já confessara à enfermeira de rabo grande, com quem costumava dar umas belas ‘trancadinhas’ à revelia da sua cornuda esposa.
Mas a cabeça não surgia, tardava a dizer ‘cucu cá estou eu!’, exasperando o médico, que via ali um parto complicado que iria atrasar a sua ida ao Estádio da Luz para celebrar o aniversário do Deus Eusébio. “Logo hoje… raio da mulher… Esta gentalha pobre só se lembra de foder os meus planos nos dias em que me pagam algo à borla. E o jantar, ainda por cima, era lagosta. Que desperdício”.

Indignado com a demora, o furioso homem aproximou a boca da vagina da mulher prenha e gritou com toda a fúria que um desvairado benfiquista pode empreender, fazendo vibrar, com as suas ondas de som vocal, as bordas da vagina: “Sai daí para fora ó caralho!”. O grito e a consequente vibração nas bordas da cona (mais calão de sarjeta), teve o condão de fazer gemer Bábá Olho Cego, com toda uma lascividade que nunca antes sentira, mas o melhor é que finalmente algo parecia estar a sair dentro dela. O médico colocou um dos olhos no buraco que se dilatava e viu surgir daí o fenómeno que iria acabar, para sempre, com a sua profissão médica extravagantemente bem remunerada. Sem que tivesse tempo de se defender, uma violenta patada (género Bruce Lee), saía pelas bordas fora e atingia com fatalidade o desprotegido olho direito do belo doutor. Agora, em vez de dois belos olhos azuis, tinha um magnífico olho celeste e um olho esburacado onde cabia o nariz do Pinóquio.

A confusão instalou-se no bloco de p
artos, com todas as enfermeiras a tentarem, em desespero, ajudar o coitado do médico que se esvaía em sangue e gritava pela ajuda do Glorioso (era Deus e não o Benfica). Deixada ao abandono, Bábá Olho Cego só teve tempo de fazer um último esforço e empurrar para o frio e doloroso chão da sala o recém-nascido que iria abalar o mundo para sempre.

Cá estava ele… a chorar que nem um bezerro que perde a teta da mãe para mamar… a gesticular por todos os lados como o João Moutinho faz sempre que leva uma trancada… ele era… um Triolho Pernetus, uma nova espécie de ser vivo com três olhos e uma perna, o digno sucessor do ultrapassado Homo Sapiens.

Assim nascia João Olho Cego, o primeiro exemplar que iria demonstrar não ser preciso ter dois olhos e duas pernas para foder a vida de um médico rico e pomposo que, nas horas vagas, abalroa por trás as enfermeiras, e que… pior… não paga as cotas de sócio do Glorioso (agora sim, refiro-me ao Benfica). A justiça divina tinha finalmente vindo ao mundo para punir os arrogantes, os injustos… e os devedores de cotas do SLB. Assim começava a verdadeira estória do herói dos oprimidos… ou então de mais um tipo que nasceu para ser um falhado e um motivo de gozo para todos os miúdos e graúdos.
Não perca os próximos episódios parvos desta incrível saga...