Fui buscar ao baú das recordações um texto que escrevi há muito tempo atrás. Não fazia sentido, depois do que disse no texto anterior, não voltar a evocá-lo.
Seria condenar ao esquecimento algo que pensei com intensidade e que não quero voltar a esquecer. Ou seja… que estúpido desperdício seria.
Saltar sobre o medo
O medo persiste em perseguir-nos por todo o lado. Para onde quer que vamos, seja lá o que for que façamos ele está sempre presente dentro de nós. Medo de pensar errado, medo de falar mal, medo de falhar nas nossas acções do dia-a-dia, de não atingir os objectivos que idealizámos para a nossa vida, medo de amar, medo de não ser compreendido pelos outros, medo de envelhecer, medo do fracasso eminente, medo de morrer…medo, medo, e mais medo.
Mas é errado querer impor a ideia de que o medo nos cercou e conquistou, de que ele é exterior a nós. Ele existe dentro de nós, é-nos intrínseco, e não pode escapar dentro de nós porque tem a sua importância para o nosso desenvolvimento, para o nosso devir como seres humanos. Mas sentirmos medo não é sinal de fraqueza ou derrota. Ele só o é, realmente, quando se apodera completamente de nós e conquista o domínio das nossas acções, levando-nos ao imobilismo, ao conformismo pelo que se instituiu normal e banal, á especulação sem conhecimento de causa, ao idealismo de poltrona em que o mundano material dita-nos o que devemos pensar ou fazer, mantendo-nos enclausurados na percepção de que nada pode ser diferente, de que não há alternativas, outros mundos para conquistar, outras galáxias na nossa mente para explorar.
O diferente mete-nos medo, a simples possibilidade de agir de outro modo terrifica-nos, amedronta-nos, faz-nos recuar perante as infinitas opções que temos ao dispor da nossa vida. Pelo que, ao ser dominados por esse sentimento, escolhemos o caminho que menos se afasta do confortável, que se apresenta como mais previsível, mais racional e aceitável aos olhos dos outros que nos observam, perscrutam e classificam, e construímos em nós uma aversão ao risco que nos deixa paralisados.
Deixámos que o medo se tornasse no espelho da nossa pessoa, que fosse lei em nós, e demos espaço à indiferença quando tentamos mentalizar no que poderia e poderíamos ter sido, mas que não o foi. Mas no fundo o nosso medo é o temor de errar, porque ele nos humilha perante os outros, faz-nos sentir inferiores, perdidos, abjectos e tontos. Optamos pelo caminho seguro, que não nos faz sentir o rubor do embaraço, que nos tranquiliza materialmente mas não emocionalmente, e nos remete para uma vivência que traz um sabor (sempre escamoteado por nós) de que algo está errado naquele enredo de que fazemos parte como elemento integrante e itinerante.
Humilhante não é o errar, perder ou ficar para trás. Humilhante é o ter medo de arriscar e de enfrentar os temores, mesmo tendo a consciência de que o perigo e o fracasso são eminentes. Viver é ganhar e perder, avançar e recuar, e se não temos medo da possível vitória, também não deveremos ter receio da derrota exequível.
O medo dominador só se expurga do seu poder entronizado em nós quando tomamos as opções que sentimos como certas, sem pragmatismo, sem receio de perder ou ficar em plano inferior aos demais, porque o que conta no fim é sabermos que fizemos tudo o que estava ao nosso alcance para atingir o nosso único dever como seres humanos de um mundo irrequieto e imprevisível: ser feliz.
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1 comentário:
Claro que, mesmo quando agimos por medo, somos tão orgulhosos que afirmamos ponderar tudo e depois escolher o caminho mais sensato. O pior é que a sensatez é, também ela, uma das muitas formas que o medo pode assumir.
Gostei do texto, enfrentaste alguns dos teus medos...
Beijos*
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